terça-feira, 4 de novembro de 2014

Capitalismo posto à mesa (Crônica)

Freqüentemente era a mesa forrada apenas pela metade, o que indicava a separação, ou divisão, que existia naquela família. Também revelava que, ali, ninguém apreciava muito fazer suas refeições juntos, pois nesse caso a mesa ficaria toda forrada, como um convite para que todos estivessem ali.

Um e outro, cada um na sua vez, senta ali para comer algo. Migalhas de pão espalhadas pela toalha, ninguém pensa em limpar. Mãe escrava existe para isso, talvez o único tipo de escravismo não apenas não abolido, como ainda incentivado. Os cachorros em volta da mesa, com olhar pedinte. Talvez caísse alguma migalha.

Resolveu o pai almoçar com a família. Não exatamente "junto". A mesa continuava forrada pela metade, de modo que só havia espaço para duas pessoas sentarem do lado forrado. Esse espaço foi ocupado pela filha e pelo genro. A outra metade estava desforrada, mas não vazia: foi tomada pelas compras feitas à tarde, ainda não guardadas. O pai afastou algumas coisas, tentando conseguir um espaço para por seu prato. Ninguém o ajudou, nem lhe ofereceu um lugar. Não ganhava muito dinheiro. Uma das regras do Capitalismo é que quem ganha mais dinheiro tem mais privilégios e direitos, quem não ganha, tem menos. É assim nas famílias, nas cidades, nos países, no mundo.

À tarde, pacotes de biscoitos abertos (e devidamente comidos) espalhados sobre a mesa, à espera de serem recolhidos pela mãe/escrava. Espera-se sempre que alguém resolva os problemas. Se deixarmos ali, alguém acaba resolvendo. Desde que não sejamos nós.

Os cachorros ainda rondavam a mesa, com olhar esperançoso.

Uma migalha.


Apenas. Uma. Migalha.
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